Tenho ouvido várias teorias sobre este país, cada uma apresentando uma perspectiva diferente e todas válidas, pois são sentidas na primeira pessoa.
Uma delas é a comparação da cultura dos países frios com os animais que vivem neles e a comparação da cultura dos países quentes com os animais que lá habitam.
Nos países frios, os animais sabem que há uma época em que não encontram alimento pois está frio, então recolhem tudo o que precisam e guardam, pois mais tarde irão precisar. Desta forma, não passam fome mesmo na época em que não há alimento.
Nos países quentes, os animais como a cigarra, não se preocupam com o alimento, pois sempre que cantam e sentem fome, comem tendo à sua disposição alimento. No dia em que não encontram alimento por algum motivo, esperam pelo dia seguinte e assim sucessivamente, até que morrem à fome, pois o alimento não "foi ter com eles".
A cultura de cá é a dos países quentes. As necessidades sentidas são as do dia-a-dia, sem pensar no futuro ou em projectos.
Há quem diga que desta forma não há stress. Mas pergunto-me, viver com stress ou viver na miséria e morrer de fome?
Claro que isto são situações extremas, mas é mesmo dos extremos que estou a falar, pois são os que aqui existem.
Interessa alimentar agora, por isso trabalhamos o suficiente para o agora.
Desta ideia questionamos a importância da escolaridade... Pelo menos para alguns, pois nem todos pensam da mesma forma, ainda que consigam viver com esta cultura.
A alternativa seria uma aprendizagem funcional, algo que se aprende para se por em prática de forma produtiva e como sustento.
segunda-feira, 28 de março de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Experiências cruzadas
Para quem conhece este livro e toda a envolvência que o acompanha, sabe que é um bom instrumento para o processo de ensino-aprendizagem.
O que eu nunca tinha pensado é que o encontraria aqui em Lichinga e que ele seria tão bem aceite pelos alunos.
Mas, pensando bem, até tem lógica...
Se aqui se vive muito mais próximo da natureza, as crianças identificam-se mais com esta história.
A cara de pânico ao ouvir que o tigre gosta de meninos e não é para brincadeiras, espelhou a atenção a toda a história. A poucos km daqui há tigres à solta...
Quando se tem uns anos e bem vividos como escuteira, no Agrupamento 371 da Baixa da Banheira onde aproveitam bem os recursos à disposição para fazer um bom trabalho educativo, a tendência é utilizar a "bagagem" para encaminhar melhor a aprendizagem dos alunos.
Estes meninos já conhecem a dança do Mogli e irão aprender mais.
Por muitos estudos que façamos, não há como a nossa própria experiência para nos dar os recursos que nos "salvam" de caminhos que poderiam ser piores.
Desta forma, cruzo experiência escutista com experiência académica. Prática informal com teoria formal.
E o resultado está a ser bom!
O que eu nunca tinha pensado é que o encontraria aqui em Lichinga e que ele seria tão bem aceite pelos alunos.
Mas, pensando bem, até tem lógica...
Se aqui se vive muito mais próximo da natureza, as crianças identificam-se mais com esta história.
A cara de pânico ao ouvir que o tigre gosta de meninos e não é para brincadeiras, espelhou a atenção a toda a história. A poucos km daqui há tigres à solta...
Quando se tem uns anos e bem vividos como escuteira, no Agrupamento 371 da Baixa da Banheira onde aproveitam bem os recursos à disposição para fazer um bom trabalho educativo, a tendência é utilizar a "bagagem" para encaminhar melhor a aprendizagem dos alunos.
Estes meninos já conhecem a dança do Mogli e irão aprender mais.
Por muitos estudos que façamos, não há como a nossa própria experiência para nos dar os recursos que nos "salvam" de caminhos que poderiam ser piores.
Desta forma, cruzo experiência escutista com experiência académica. Prática informal com teoria formal.
E o resultado está a ser bom!
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sábado, 26 de março de 2011
Embondeiro ou baobá
E como educar não é só conviver com os alunos, fomos passear até ao Lago Niassa, que quer dizer Lago Lago, pois a palavra Niassa quer dizer Lago. Neste dia recarregámos baterias e enriquecemos a alma com esta paisagem, cultura e gentes.
Por mais fotografias que se tire, é impossível transmitir qual é a sensação de estar perto de um embondeiro.
Numa das fotografias estou eu, como os meus 1,64 metros ao lado de um embondeiro.
Agora percebo porque foi inserido na história de "O Principezinho".
Por mais fotografias que se tire, é impossível transmitir qual é a sensação de estar perto de um embondeiro.
Numa das fotografias estou eu, como os meus 1,64 metros ao lado de um embondeiro.
Agora percebo porque foi inserido na história de "O Principezinho".
Carro de arame
Cá estão as obras de arte construídas pelos meninos de uma terra chamada Metangula, perto do Lago Niassa.
Esta fotografia, tirada pela Júlia, foi pedida aos proprietários das viaturas que, orgulhosamente, mostraram as suas construções.
Fazem também carros de caniço e outros brinquedos estupendos!
Esta fotografia, tirada pela Júlia, foi pedida aos proprietários das viaturas que, orgulhosamente, mostraram as suas construções.
Fazem também carros de caniço e outros brinquedos estupendos!
As gomas vindas de Portugal
A alegria de receber é sempre muita, mas quando se recebe um doce com forma de urso, parece que explodem de felicidade!
Aos meus colegas da Universidade Aberta e à minha mãe, que se juntaram para comprar material escolar e didático para estes meninos, deixo aqui o meu muito obrigado!
Os alunos exprimiram grande agrado especialmente para as gomas, que antes de serem comidas foram alvo de brincadeiras. Alguns até esconderam os dois ursinhos... "Sabe-se lá quando é que aparecem mais, deixa lá guardar", devem ter pensado!
Não sei se é anti-pedagógico ou não, mas a inspiração para a matemática enquanto comiam as gomas foi produtiva!
Enquanto referia cada material recebido, era seguida de um "Eh!" em coro, mesmo eles sabendo que esse material é para aprender e não apenas para brincar.
Não sei como é que eles pensam sobre Portugal, mas parece-me que sentem que podem contar connosco. Só entrando naquelas cabecinhas que transmitem um olhar misterioso é que poderiamos saber.
Aos meus colegas da Universidade Aberta e à minha mãe, que se juntaram para comprar material escolar e didático para estes meninos, deixo aqui o meu muito obrigado!
Os alunos exprimiram grande agrado especialmente para as gomas, que antes de serem comidas foram alvo de brincadeiras. Alguns até esconderam os dois ursinhos... "Sabe-se lá quando é que aparecem mais, deixa lá guardar", devem ter pensado!
Não sei se é anti-pedagógico ou não, mas a inspiração para a matemática enquanto comiam as gomas foi produtiva!
Enquanto referia cada material recebido, era seguida de um "Eh!" em coro, mesmo eles sabendo que esse material é para aprender e não apenas para brincar.
Não sei como é que eles pensam sobre Portugal, mas parece-me que sentem que podem contar connosco. Só entrando naquelas cabecinhas que transmitem um olhar misterioso é que poderiamos saber.
sexta-feira, 25 de março de 2011
"À Espera"
Esta obra mostra-nos duas mulheres moçambicanas na noite da grande lua cheia, sentadas à espera dela.
Foi com grande surpresa e agrado que recebi este belo presente da minha colega Isaura Rosa.
Como uma verdadeira artista, inspirou-se na lua e na experiência que estou a viver e pintou este quadro magnífico!
A terra daqui é mesmo cor-de-laranja avermelhado. As mulheres têm por hábito sentarem-se desta forma e até utilizam a expressão "Vou ficar sentada só, em casa." quando estão desempregadas. E as suas roupas têm as cores vivas e fortes que vemos pintadas.
Muito obrigado, Isaura! Tens um belo dom!
quinta-feira, 24 de março de 2011
O reverso do carinho
Quando sentimos que um menino procura carinho a resposta espontânea é dar-lhe esse carinho.
Mas quando questionamos porquê esta necessidade incansável, ficamos a conhecer o reverso do carinho.
Todos os dias ao chegar sou acolhida por um aluno. Todos os intervalos esse aluno pede para ficar na sala a ler ou a jogar comigo e com mais nenhum colega. Quando saio no final das aulas, todos os dias esse aluno me diz "Até amanhã, titia", com um grande sorriso.
Apesar das crianças daqui serem bastante dadas e carinhosas, este menino sai fora do padrão.
Porquê?
Porque tinha uma família como poucas cá, com pai e mãe que se gostavam e mais 3 irmãos todos do mesmo pai.
Todos acarinhados pelos pais, especialmente pelo pai que os acompanhava sempre.
Utilizo o tempo verbal no passado porque o pai faleceu há quase 2 anos, vítima de sida.
Como terá ficado esta criança de 7 anos agora, desde que viu o seu modelo de vida desaparecer?
O que sentirá este menino cada vez que uma titia de Portugal vier cheia de carinho para dar, e depois se for embora para nunca mais voltar?
Vale a pena dar o carinho todo que ele merece para depois o deixar com a dor que não merece?
Vai chegar o dia em que ele não poderá dizer "Até amanhã, titia".
Como lidar com esta vontade de querer dar, porque foi isso que vim cá fazer, e lidar com a certeza de que ele merece ficar bem?
Há dias em que as perguntas pairam na tentativa de encontrar a melhor resposta.
Mas quando questionamos porquê esta necessidade incansável, ficamos a conhecer o reverso do carinho.
Todos os dias ao chegar sou acolhida por um aluno. Todos os intervalos esse aluno pede para ficar na sala a ler ou a jogar comigo e com mais nenhum colega. Quando saio no final das aulas, todos os dias esse aluno me diz "Até amanhã, titia", com um grande sorriso.
Apesar das crianças daqui serem bastante dadas e carinhosas, este menino sai fora do padrão.
Porquê?
Porque tinha uma família como poucas cá, com pai e mãe que se gostavam e mais 3 irmãos todos do mesmo pai.
Todos acarinhados pelos pais, especialmente pelo pai que os acompanhava sempre.
Utilizo o tempo verbal no passado porque o pai faleceu há quase 2 anos, vítima de sida.
Como terá ficado esta criança de 7 anos agora, desde que viu o seu modelo de vida desaparecer?
O que sentirá este menino cada vez que uma titia de Portugal vier cheia de carinho para dar, e depois se for embora para nunca mais voltar?
Vale a pena dar o carinho todo que ele merece para depois o deixar com a dor que não merece?
Vai chegar o dia em que ele não poderá dizer "Até amanhã, titia".
Como lidar com esta vontade de querer dar, porque foi isso que vim cá fazer, e lidar com a certeza de que ele merece ficar bem?
Há dias em que as perguntas pairam na tentativa de encontrar a melhor resposta.
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