sábado, 19 de março de 2011

Tempos livres



Como qualquer cidadão do mundo, a população de Lichinga também tem tempos livres, mas passa-os de forma diferente.
Algumas crianças brincam da forma que conhecemos, como "jogar game", como eles dizem.
Outras brincam em contacto directo com o meio, sem qualquer televisor ou outro aparelho, como vemos na fotografia.
Outras ainda durante os seus tempos livres, ou seja, o tempo que não estão na escola, aproveitam para ajudar as mães.
Neste caso, estes dois meninos e estas senhoras carregam madeira que sobrou de uma serração, para se poderem aquecer em casa, explicaram elas.
Andam com este peso cerca de uma hora, segundo informaram...
E assim está feito o descanso para preparar para mais uma semana de trabalho!

quarta-feira, 16 de março de 2011

A infância


Durante os jogos que realizámos no Carnaval, estavam estas crianças a observar tudo ao detalhe, como quem aprende com o olhar.
Estas crianças nascem e crescem em condições mínimas, sem sentir falta de mais porque, pura e simplesmente, não conhecem.
Ao ver meninos da escolinha com máscaras, ficaram surpresas e observaram como nos organizámos e jogámos.
Primeiro estavam escondidos no meio do capim ou atrás uns dos outros, mas depois começaram a integrar-se até que acabaram por se juntar à nossa roda do peixinho, talvez sem perceber o que se passava, mas com olhar muito atento e sem dizer uma palavra, pois muitos falam apenas jaua, macua ou outro dialeto.
Tal como elas perante nós, nós também ficamos surpresas e muito admiradas pela capacidade que estas crianças têm em construir os seus próprios brinquedos.
Pela capacidade de brincarem apenas com as flores que apanham do chão, fazendo coroas e outros artefatos magníficos, como carros de caniço e arame, rodas controladas com paus, etc.
Ainda não tive coragem para lhes pedir para tirar uma fotografia... É um mundo tão delas... Ou se calhar é apenas uma complicação minha e elas até adorariam ser protagonistas da nossa história e experiência de vida.
Com nada, fazem tanto!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Materiais manipulaveis


Qualquer estudante para professor de hoje sabe as vantagens que há em utilizar materiais manipulaveis, principalmente em conteúdos mais complexos e de difícil compreensão, como é o caso da subtração.
Então, como fazer com estes alunos que estudam numa escola que está numa cidade onde não há esses materiais?
Depois de uma produtiva conversa no skype com uma colega minha da Universidade Aberta (sim, Inês, és tu ;)), fiquei a perceber que eu estava a complicar.
Se não há materiais fazemos!
E como fazer se não há recursos financeiros para comprar material para a construção?
Cartões velhos cortadinhos aos bocados, como os que vemos nas fotografias.
Agora sim, com os cadernos quadriculados que temos recebido dos anjos de Portugal e com os cartões de papelão, os alunos já estão a começar a interiorizar o conceito de subtração.
Estranho é aperceber-me que os cartões são cobiçados por todos os alunos...
Como fazer quando temos apenas 200 cartões e os alunos são 37?
Fazemos mais cartões e/ou ensinamos que conseguem trabalhar em conjunto, trabalhos de grupo onde os alunos trabalham todos para um mesmo fim.
Para além do conceito de subtração, temos que parar para explicar o conceito de trabalho de equipa, pois também não é uma prática muito usual por aqui...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Pintura dos trabalhos em barro

Cá está um exemplar do barro pintado!
O final do trabalho será depois da colagem dos cartões com a mensagem para o dia do pai.
Claro que, aqueles alunos que não têm pai ou mãe a quem dar o presente, poderão dar a qualquer familiar ou encarregado de educação que faça esse papel.
Esta atividade, para além da modelagem e pintura em barro, desenvolve a escrita e também o sentido de família que alguns de nós temos que ultrapassam os laços de sangue.

Carnaval em Lichinga

Como em alguns locais no mundo, aqui em Lichinga não se vive o espírito de folia do Carnaval, com as máscaras e a música.
Para criar mais uma oportunidade diferente das crianças desenvolverem competências que de outra forma seria difícil, decidimos construir cada um a sua máscara e organizar jogos de corda, bola, estafeta e sacos, onde os alunos das 3 classes conviveram num ambiente de festa.
Depois dos jogos, os alunos da 2ª Classe foram convidados a fazer um desenho sobre o carnaval.
Talvez sem surpresa para nós, em vez de máscaras, desenharam campos de jogos e muitas pessoas reunidas.
Apesar de lhes ter sido explicado o significado do Carnaval e como é vivido noutros países, estas crianças assimilaram aquilo que viveram e para eles o Carnaval passou a ser um dia com jogos diversos onde podem usar máscaras.
Pelo menos deixámos mais uma janela da imaginação aberta, mais uma abertura para o que se passa pelo mundo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Doenças

O título podia ser "Parasitas", mas como tenciono acrescentar comentários a este post, caso surjam aspetos sobre doenças das quais quero ter registo, optei pelo apresentado.
A fotografia (tirada pela Titia Júlia) apresenta um pé de uma criança com 2 anos de idade que tem como parasita uma pulga penetrante, mais conhecida por mataquenha.
Pelos vistos é frequente que estas pulgas penetrem há mais pequena oportunidade e se acomodem dentro da pele, reproduzindo-se e crescendo.
Como saber se temos mataquenha?
Para além da comichão que dá, devemos ir verificando se não aparecem pontinhos escuros rodeados de branco no sítio da comichão ou lá perto.
Pode acomodar-se especialmente nos pés e mãos, por baixo das unhas.
O tratamento parece ser só para quem consegue fazê-lo, pois tem que se cortar/raspar a carne que está contaminada pela pulga e retirar tudo o que está a mais, colocando por cima um género de ácido que corroi para a pulga não se repoduzir, e repetir até estar bom.
Se se esmaga a pulga apenas, corre-se o risco de ficar com resíduos (ovinhos) e continuar a reprodução...
Pelos vistos o tratamento que parece cruel não dói, pois a criança da fotografia não se queixou... Talvez porque a carne estivesse podre e como se já não fosse dele...

A doença que também parece ser frequente por aqui é a "tinha", cujo aspeto são manchas brancas na pele seca. Então vemos alunos com manchinhas brancas na cabeça, cabeças essas onde não convém tocar, pois a tinha contagia-se pelo toque.
Estamos perante "A tinha do couro cabeludo é causada pelo Trichophyton ou por outro fungo chamado Microsporum. [...] é altamente contagiosa, especialmente entre as crianças. Pode provocar uma erupção vermelha descamativa bem mais pruriginosa, ou então placas de calvície sem erupção." retirado de http://www.manualmerck.net/?id=228&cn=1855
O tratamento para a tinha parece simples, pois resume-se a colocar durante 7 a 10 dias uma pomada própria para o efeito, e esperar que passe.

Um intervalo diferente

Depois da entrega do esqueleto, os alunos decidiram ler em voz alta, cada um com o seu livro, para o novo membro da escola.
Ao serem convidados a escrever notícias no jornal de parede da sala de aula, os alunos aproveitaram para explicar a entrada do esqueleto.
Uma das frases escritas a seu respeito foi: "Com o esqueleto aprendemos a ler bem."
Deduzo que seja pelos intervalos que alguns alunos passaram a ler em voz alta por vontade própria!