quinta-feira, 24 de março de 2011

O reverso do carinho

Quando sentimos que um menino procura carinho a resposta espontânea é dar-lhe esse carinho.
Mas quando questionamos porquê esta necessidade incansável, ficamos a conhecer o reverso do carinho.
Todos os dias ao chegar sou acolhida por um aluno. Todos os intervalos esse aluno pede para ficar na sala a ler ou a jogar comigo e com mais nenhum colega. Quando saio no final das aulas, todos os dias esse aluno me diz "Até amanhã, titia", com um grande sorriso.
Apesar das crianças daqui serem bastante dadas e carinhosas, este menino sai fora do padrão.
Porquê?
Porque tinha uma família como poucas cá, com pai e mãe que se gostavam e mais 3 irmãos todos do mesmo pai.
Todos acarinhados pelos pais, especialmente pelo pai que os acompanhava sempre.
Utilizo o tempo verbal no passado porque o pai faleceu há quase 2 anos, vítima de sida.
Como terá ficado esta criança de 7 anos agora, desde que viu o seu modelo de vida desaparecer?
O que sentirá este menino cada vez que uma titia de Portugal vier cheia de carinho para dar, e depois se for embora para nunca mais voltar?
Vale a pena dar o carinho todo que ele merece para depois o deixar com a dor que não merece?
Vai chegar o dia em que ele não poderá dizer "Até amanhã, titia".
Como lidar com esta vontade de querer dar, porque foi isso que vim cá fazer, e lidar com a certeza de que ele merece ficar bem?
Há dias em que as perguntas pairam na tentativa de encontrar a melhor resposta.

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