segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

No mundo da Lua



Daqui de onde eu estou, só vejo nevoeiro.

Sendo uma eterna sonhadora, pensam, com frequência e sem coragem de o admitir, que eu vivo no mundo da Lua.

É nestes dias, em dias de nevoeiro, que eu tenho a sensação, quase certeza, que se eu estou no mundo da Lua, há muitos que vivem numa Terra tóxica, cheia de poluição da pior, onde reinam os pensamentos egoístas e sobre o próprio umbigo.

Aqui da Lua, parece que esse mundo não leva a lado nenhum. Mas parece que só eu é que vejo…

Depois, chega o Natal, e todos compram presentes caros para todos, sem emoção nem longevidade.
Aqui da Lua, quando vejo pessoas a abraçarem-se, tudo me parece mais agradável do que quando vejo embrulhos caros a serem abertos por alguém que não abraça quem deu.

Em dias de sol, vejo que não sou a única no mundo da Lua, não estou sozinha nesta forma de viver.
Afinal não é tão errado assim.

O que tem de errado gostar do que se faz, mesmo que se ganhe menos?
O que tem de errado gostar de brincar com as crianças que me rodeiam?
O que tem de errado pensar menos em mim e mais nos outros?
O que tem de errado conversar com adolescentes como se fosse um?
O que tem de errado ensinar os mais velhos?
O que tem de errado apenas parar quando estou realmente cansada?
O que tem de errado errar de vez em quando?
Cada vez menos são os dias de sol… Cada vez mais são os dias de nevoeiro…

Se morrer, morro a chorar, não por ter vivido no mundo da Lua mas por pena de não ter conhecido mais gente de lá…

Boas festas pela Terra!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Espectadores do Natal


Nesta época natalícia, tal como há uns anos para cá, vou na estrada e penso "Mas está tudo louco?".
Sim. Parece que, em vez de desacelerarem e aproveitarem o tempo que simboliza, as pessoas optem por correr atrás não sei bem do quê...
Uns dizem que é das prendas, outros dizem que é dos ingredientes em falta para que a mesa do natal continue a ser uma mesa cheia de coisas e mais coisas que se comem ou se forçam comer.
Desta vez optei ser espectadora, tal como as crianças o são.
E, devo confessar que, mesmo não saindo do lugar, dou por mim a ficar acelerada também... Nervosa pelo trânsito, chateada pelas filas intermináveis, e surpreendida pela contradição face aos valores desta época.
Fazer o quê? 
Fechar os olhos?
Ganhar a mesma velocidade que todos?
Ou continuar como espectadora desta euforia natalícia contraditória à tranquilidade familiar?
Continuarei a assistir, a trocar as compras por brincadeiras, o trânsito por um belo chá quentinho.
Como farão as crianças que ainda têm o Pai Natal?
As suas cabecinhas devem estar a mil à hora...
Paciência e boa disposição, é o que desejo que as crianças tenham com os adultos neste Natal.

Boas festas!


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Comércio tradicional


De vez em quando lembro-me desta cidade, Lichinga. 
Nesses dias, como o de hoje, lá vou eu procurar mais fotografias para partilhar e dar a conhecer uma realidade tão diferente da minha.
Em 2011, o comércio tradicional de Lichinga não era apenas assim, apesar de ser a maioria.
Tal como nos países ocidentais e na própria cidade de Maputo, capital deste país, há lojas em edifícios mais modernos e com construção mais evoluída.
No entanto, não é isso que é desejado por estas pessoas.
Elas realmente gostam e confiam no que lhes é tradicional.
É mais barato, mais acessível e de mais fácil manutenção.
Para quê ter alta tecnologia se depois não conseguimos fazer uma manutenção correta da mesma?
Apenas criamos mais lixo e aumentamos o preço para os nossos clientes.
Se der uma espreitadela ao álbum Laboral, ficará a conhecer mais exemplos de gestão adequada ao público.
Se a grande maioria não tem dinheiro ou tem pouco, tenho que conseguir vender até a essa maioria.
Assim ficam todos contentes e servidos: quem vende e quem compra.
A situação mais controversa é mesmo a venda de roupa.
Sabemos nós que enviamos para África contentores de roupa para doar. 
Doar a quem? Alguma roupa chega diretamente às famílias mas outra não. É colocada à venda.
Será isso mau?
Ou será o comércio daquela zona assim?
Não nos podemos esquecer que a maioria das famílias não tem máquina de lavar sequer... Lavam a roupa uma vez por semana quando se deslocam ao único rio com caudal suficiente para lavar. Horas de caminhada. Ora, se tiverem muita roupa, têm que carregar muita roupa, visto que também não têm carro.
E por aqui continuaria de lógicas que validam o que para eles é tradicional e deve continuar.
Se quiser pode comprar o livro Titia amanhã não vou vir, onde explico o que realmente vi e vivi com eles.

Bons comércios!

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Edufeira, que mais?

retirado de https://edufeira.cm-feira.pt/ a 5 de novembro de 2019

"inovamos para o sucesso"

É de louvar qualquer iniciativa que nos possa levar à aquisição de competências e aprendizagens para que consigamos viver melhor num mundo melhor.
O grande problema está em criar as iniciativas com esse fim tentando enquadrar num panorama que não está preparado para tal.
Por exemplo, o projeto Edufeira, da Câmara Municipal da Feira, tem tudo para ser um excelente projeto mas... Até agora o que se viu foi a distribuição de panfletos a divulgar o projeto, a criação de um site e... Mais nada.
Este projeto inclui alunos desde o pré-escolar até ao 3º ciclo. Refere que tem como grande objetivo a aquisição de competências para o sucesso escolar.
Mas em que medida?
Sucesso escolar por parte de quem? Dos alunos?
Por acaso pensaram nos professores e educadores? Ou nos pais e encarregados de educação?
Ou terão eles que fazer nova ginástica para encaixar mais esta iniciativa no seu programa já de si extenso?
Espero que me entendam bem, pois estou totalmente a favor deste e de outros projetos, das temáticas e dos desafios, da forma como está projetado no site e das 6 ações pensadas.
Como vejo neste projeto uma mais-valia para a comunidade educativa, entristece-me ver que está a "passar ao lado" como tantos outros...
Com os pais que temos hoje, não todos, é certo, mas a maioria, é possível fazer algo mais com cada projeto.
Estamos todos saturados de mais reuniões desprovidas de conteúdo, apenas tendo como ordem de trabalhos o mesmo de sempre e que normalmente é alterado ao longo do ano letivo.
Projetos são bem-vindos. Bons projetos ainda mais. Projetos que envolvam realmente todos aqueles que querem participar são o topo.
A sugestão que deixo é envolver não só pela distribuição de panfletos explicativos mas com chamadas à ação. Só assim há verdadeiras mudanças...
Papéis recebemos muitos...
Projetos também...
Chamadas à ação explícita nem por isso.

Bons projetos!

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Saúde mental, ainda tabu porquê?


Hoje, 10 de outubro, assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental.
Ao ver a notícia de hoje na RTP 1, fiquei a pensar se não estaremos todos a precisar de terapia para melhorar a nossa saúde mental...
Gostava mesmo de saber porque ainda teimamos em resolver os problemas sérios apenas quando estamos a bater no fundo, quando estamos do fim da linha e ainda nos dizem "Manias... Está com depressão."
Isto tudo da saúde mental não é assim tão simples quando se trata de uma doença, e podem ser imensas diferentes.
Podem ser também muitas as causas para chegarmos a certos pontos menos agradáveis da nossa vida.
Mas uma coisa é certa, se começarmos cedo a saber lidar com emoções, tal como começamos cedo a saber lidar com letras e números, o caminho é menos doloroso.
Em Portugal existe UM Programa de Saúde Mental e Emocional em meio escolar, que a Associação Escutar trouxe para Portugal há mais de 3 anos.
Pergunto-me porque é que ainda não estamos a falar sobre isso a todos os ventos?
Este programa existe em mais de 30 países do mundo, está recomendando pela Organização Mundial de Saúde e, em Portugal, conseguimos que esteja a ser aplicado já a vários Agrupamentos de Escolas e JI privado.
Os velhos do restelo dirão que no tempo deles não havia nada disto e estão hoje firmes.
Pois eu, tal como outros, sabemos que hoje temos já adolescentes que nada têm de parecido com os adolescentes de há 40 anos. Teremos que abordar isto quantas vezes?
Se a realidade do dia a dia é diferente, a forma de lidar com tudo também o deverá ser.
Pois então, o Amigos do Ziki dá formação específica a Educadoras de Infância, Professores de Ensino Especial e Famílias nesta área, com um programa pré-definido para crianças no último ano do pré-escolar ou crianças com idade mental de 5/6 anos.
Querem saber mais?
Deixo o convite para visitar o site ou página facebook e pedir informações sobre o que já se fez e sobre como aderir.

Boas saúdes!

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Parar, antes de andar


Sim, tal como ensinamos aos mais novos, para atravessar a estrada é preciso primeiro parar. Depois olhar para os dois lados. Depois, se não vier nenhum veículo, aí sim, avançar com calma mas com confiança de que vai atravessar em segurança até onde escolheu ir: para o outro lado da estrada.
Este ensinamento é para tudo na vida.
No Niassa, em 2011, parei.
Olhei para todos os lados da minha vida, deliniei um plano e avancei. Continuo a avançar, com a confiança de que estou segura pois a escolha foi pensada.
Mas a vida não é uma simples estrada que atravessamos...
Há tantos obstáculos que não conhecemos nem imaginamos que existem...
Quando os encontramos podemos saltar por cima deles, derrubá-los, empurrá-los, destruí-los.
Mas será essa a solução a longo prazo?
Eu opto parar.
Paro e analiso bem o obstáculo. Escolho as soluções ideiais para seguir o meu caminho e estar preparada para outro obstáculo semelhante.
O que ganho em parar tantas vezes?
Poupo a minha energia...
Não me desgasto cada vez que algo mau me acontece.
Apenas vivo e saboreio.
Disse-me um miúdo o outro dia que eu pareço mais velha porque já tenho cabelos brancos à vista.
Nada sei sobre cabelos e porque ficam brancos.
Apenas não os pinto. Não irei escondê-los porque gosto deles.
Será que estou velha? É do stress que me desgasta?
Já conheci o meu pai com cabelos brancos.
Adoro-os por isso.
Lá está, saboreio a vida.
Paro, escuto e olho, todos e tudo o que me rodeia.
Deixo o melhor de mim onde passo mas também tento colher o melhor que conseguir desta vida, e isso não é material. É preciso parar.

Boas paragens!

Veja o álbum No Niassa de férias.
Se pretende adquirir o livro envie email para abrantes-sonia@gmail.com.

domingo, 15 de setembro de 2019

Escuteiro, em qualquer lugar ou época


Desde que nasci, via a minha irmã ir para os escuteiros.
Desde que me lembro, que recordo querer andar sempre entre os lenços coloridos mas só aceitei entrar para os escuteiros aos 8 anos, que foi a mesma idade que a minha irmã entrou.

Se a ela corre bem, vou fazer igual!

Vantagens ou desvantagens de ser irmã mais nova...

Até há poucos anos, continuei neste estilo de vida, até ter que fazer opções profissionais, pessoais e familiares que me impediam de continuar a fazer do meu tempo algo precioso para mim: o escutismo.
Trabalhei em várias cidades do país e, em todas elas conheci o respetivo agrupamento de escuteiros, participando em atividades e conhecendo os seus elementos, entrando até em dois deles, pois a força de atração é mais que muita.
Quando fui trabalhar para fora do país a primeira vez, no Kosovo, não encontrei escuteiros. Embora o Cristianismo seja a religião mais antiga deste país, a presença dos muçulmanos é bastante forte e geradora de conflitos idealistas.
Quando fui para fora a segunda vez, como professora de 1º ciclo em Lichinga, no norte interior de Moçambique, encontrei escuteiros: o Agrupamento 1100. Com o mesmo fardamento que nós, em Portugal, a mesma metodologia e método.
Alegres por conhecer alguém escuteiro que não é dali, rapidamente explicaram que também fazem atividades mas sempre por perto, a pé e com o material que têm disponível. Têm uma sede, mas a assiduidade dos escuteiros não é muita devido à saúde e à dificuldade nas deslocações. A sede, por isso, está apenas com as paredes e teto, mais nada. Tal como as escolas oficiais de Moçambique.
Mas o brilho nos olhos pelo orgulho de vestir esta farda é o mesmo.
O desejo de partilhar atividades e experiências é também o mesmo.
Aproveito este início de Ano Escuta para deixar o desafio de um intercâmbio.
A quem lá for, eles existem, apesar de escondidos, e estão ansiosos por novas experiências e descobertas para um crescimento pessoal mais enriquecido, tal como todos os escuteiros.

Mais fotografias podem ser vistas AQUI.

Bom escutismo!